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Histórica entrevista c/ Roselys Vellozo Roderjan

Por: Alison Henrique Machado (leia a sinopse abaixo do vídeo)

Roselys Vellozo Roderjan,

Curitibana nato, expoente da Literatura, Cultura, História e Folclore de “os curitibanos”, no séuclo XX, nesta entrevista (provavelmente realizada nos anos 1980), Roselys Vellozo Roderjan, com sotaque curitibano raiz e uma voz feminina que demonstra simpatia da “cidade sorriso”, sabedoria e amor pela terra dos campos de pinheirais, desconstroi as inverdades difundidas por Paixão Côrtes e Barbosa Lessa, patriarcas do Movimento Tradicionalista Gaúcho.

Mas quem foi essa curitibana Roselys o quê? — Certamente indagou o leitor.

Em pleno século da sociedade moderna “feminista”, não soa estranho o total desconhecimento e desprestígio desta sábia mulher que foi Roselys Vellozo Roderjan?! Nem mesmo o Dr. Google encontrou biografia sobre esta personalidade curitibana que nos deixou grande legado. Suas obras são referências para, absolutamente, TODOS historiadores do Sul.

Pode-se afirmar que esta página é a primeira, na internet, dedica à biografia de Roselys Vellozo Roderjan, embora nos falte praticamente todas informações básicas. É assim que, infelizmente, temos tratados nossos heróis nesta sociedade atual cuja geração parece sofrer com excesso de ego.

Em seu livro “Os Curitibanos e a Formação de Comunidades Campeiras no Brasil Meridional (Séculos XVI-XIX)”, publicado em 1992 pelo IHGPR, que acabo de aquirir um exemplar semi-novo e que é referência para Historiadores dos três estados meridionais, encontrei as únicas informações biográficas. 

Roselys Vellozo Roderjan nasceu em Curitiba-PR, neta do poeta Dario Vellozo, realizou o Bacharelado com Licenciatura na UFPR e foi professora durante o regime militar. Após se aposentar,  realizou Pós-Graduação e Mestrado em História na UFSC, cuja tese foi “Formação de comunidades campeiras nos planaltos paranaenses e sua expansão para o sul (séc. XVI-XIX)”, defendida e aprovada em 1989.

Com inúmeras obras publicadas sobre o folclore paranaense (História, Música e Artes), Roselys Vellozo Roderjan constituiu família tradicional, e pertenceu:

— ao IHGPR (Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense), em Curitiba; 
— ao IHGSC (Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina), em Florianópolis;
— ao Centro de Letras do Paraná (Curitiba);
— à Academia Feminista de Letras do Paraná (Cadeira Nº. 11, Curitiba);
— ao Centro Paranaense Feminino de Cultura (Curitiba); e
— foi presidente da Comissão Paranaense de Folclore (Comisão Nacional de Folclore – IBECC), de 1976 a 1983.

Quantas lições o tal movimento feminista tem de aprender com esta personalidade genuinamente curitibana  e empoderada, que é fonte de inspiração, não só para mulheres, mas também para nós homens!

Se queremos construir uma sociedade justa, comecemos pela gratidão. Até quando, nós, paranaenses, catarinenses, sul-riograndenses e brasileiros, seremos ingratos com nossos verdadeiros heróis???

 

Texto orgulhosamente por: Alison Henrique Machado

 

 

FONTE DA ENTREVISTA
35 anos de jornalismo sob a ótica de Aramis Millarch (http://www.millarch.org/audio/roselys-velloso-roderjan).

Creative Commons License

O áudio da entrevista é disponibilizado sob a licença Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Compartilhamento pela mesma Licença 2.5 Brasil

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O profeta São João Maria — Guarapuava

Ao observar que uma tempestade se aproximava, o profeta se escondeu embaixo de uma árvore. Um casal que morava próximo ao local onde ele dormia pensou que aquele homem era um mendigo. Penalizados com a situação, o dono da casa foi ao seu encontro oferecendo-lhe abrigo. Ao chegar perto de João Maria, o homem se assustou. João estava calmamente a principiar um fogo e fazendo chimarrão, convidou-o para abrigar-se em sua casa e João Maria respondeu:

— Não se preocupem comigo, vou benzer a tormenta, vá para a casa e tranquilize a sua esposa.

O homem contrariado com a recusa do monge, voltou para a casa dizendo à esposa:

— Acho que o homem lá é louco, vendo que vai chover está acendendo um fogo.

Nesta tarde choveu muito e quando a tempestade passou, o dono da casa resolveu ir até a casa de sua mãe, e ao chegar perto da árvore onde o monge se abrigou, assustou-se. O fogo estava aceso e debaixo da árvore o chão estava seco. Admirado com o que viu, chegou na casa da sua mãe, contou o que havia acontecido e ela disse:

— Eu vi, ele passou por aqui. Você estava diante de um homem santo, ele é um profeta e quem guardar seus ensinamentos não perecerá.

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Prosa curitibana

Por: Erichsen Pereira

Nas pousadas e nos galpões, à noite, enquanto o chimarrão rodava, iam ouvindo histórias contadas com aquele vagar e descanso dos que não tinham pressa — porque não adianta tê-lo — dos que sabiam ter paciência, sabendo, de antemão, o tempo a ser gasto em cada jornada percorrida. Assim, foram aprendendo ‘causos’, aprendendo-os para contá-los mais à frente. Dessa forma, faziam-se bons conversadores, sabendo ouvir e sabendo falar por sua vez. É este, ainda, passados anos, um dos traços característicos dos homens dos Campos Gerais.

PEREIRA, J. E. Erichen. Uma História de Caminhos. Curitiba. SEEC. 1997. p.38.

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Coleta de Pinhão

Por: Alison Henrique Machado

Sinto o aroma que exala
Da erva-mate sombreada
Tem gosto de pinhão, sabor curitibano
O canto da gralha anuncia a temporada

Meu garrão cavalga troncos centenários
As mãos perfuradas no montante de sapé
Dedos congelam no outono do Sul
Garimpando a semente

Puxo a cordeona um xote e chamamé
Meu Sul de encantos
E se o poncho me protege do minuano
A sapecada aquece a alma

Taquara, espora, bombacha
A pinha que desfalha, e se espalha na geada
Grimpa, gaita, chalera
No pé da araucária, tem pinhão na brasa
Tem chimarrão e vanera

Licença Creative Commons
Coleta de Pinhão” está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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O proverbial mate amargo

Por: Alison Henrique Machado


 

Na região do vale que emana o alto, o médio e o baixo Iguaçu, principalmente o planalto curitibano, onde estão as nascentes, cujos céus cinzentos são predominantemente típicos — Curitiba é uma das cidades do planeta com menos dias de sol e, quando aparece, é acompanhado do frio — a principal fonte da vitamina D não é da luz do dia. É a sombra das araucárias que emana — em simbiose com uma folhosa, cujo aroma das folhas exala a cuia, e o mateador sorve o dito nutriente na seiva, a seiva da erva-mate — pois a Natureza é perfeita.

A erveira é sensível à exposição solar, e cresce nativa na sombra do pinheiro-do-paraná (Araucaria angustifolia). Aliás, araucárias e erva-mate comunicam entre si, formando um nicho majestoso que entende-se no longínquo sertão de Curitiba, como nas bacias do Tibagi e Ivaí, nutrindo os viventes na proverbial erva-dos-jesuítas.

A erva-mate foi classificada pelo seu habitat natural frio: Ilex curitibensis (Jhon Miers, Londres, 1861)— o termo “curi+tyba” é uma expressão guarani e significa “abundância de pinheirais / pinhão”.

Os planaltos do Paraná Tradicional, cuja fronteira entendia-se ao Rio Grande, eram denominados de Curitiba: Campos de Curitiba, o primeiro planalto; Campos Gerais de Curitiba e Sertão de Curitiba, o segundo e terceiro planaltos — e éramos todos curitibanos, por excelência, por cultura, por civilização, por gentílico, por ecologia.

 


 

Maringá, 2016
Academia Curitibana de Letras
Endereço eletrônico: https://camposcuritibanos.com
 

Licença Creative Commons
“O proverbial mate amargo” está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.

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Volta às raízes Gaucho curitibano

Por: Arthur Tramujas Neto


O pequeno restaurante localizava-se em uma esquina qualquer atrás do Duomo das três vezes milenar Pádua, no norte da Itália. Lá estávamos eu e o Aloisio, pernambucano do Recife, amigo inesquecível com quem eu dividia, senão o apartamento onde morava, o ‘banzo’ que seguidamente nos assaltava. Tínhamos parado para comer pimentinha frita e frango a passarinho, regados a um ótimo vinho ‘casalingo’ que oferecia o simpático lugar.

Sentados a uma mesinha junto à janela, de enormes vidraças, comíamos mecanicamente e bebericávamos, após um meia hora de papo sobre o mesmo e eterno tema: o Brasil.

Olhando para fora meus olhos percorriam a rua: molhadas calçadas e paralelepípedos, a neblina forte, rostos rosados, passos apressados fugindo do frio e da umidade, casacos e casacos, sempre azuis, marrons, cinzas… Percebendo a placa que indicava o nome da rua em que estávamos não tive como não sorrir: via Prosdócimo. A proximidade das festas de fim de ano, a distância da família, dos amigos, apertou-me o coração e banhou-me a visão.

Atento, Aloisio saiu do silêncio em que mergulhávamos e perguntou-me o que havia. Quase sem querer respondi-lhe que estava lembrando de casa, que o que via recordava Curitiba.

Espantado ele começou a rir, dizendo que eu deveria estar louco, que não havia nada ali que pudesse lembrar o Brasil, aquele frio desgraçado, a neblina toda, chuva, chuva. Brasil, da onde, da onde Brasil?

E foi aí que caí em mim, depois de milênios em silêncio ouvindo Aloisio pintar ‘seu’ Brasil.

Aloisio, disse-lhe de repente, tateando uma descoberta seguida por uma enxurrada de palavras, Aloisio, meu caro, eu nunca vi uma praia de coqueiros, a não ser no cinema. O frevo é pra mim uma música e dança exótica. Não sei bem o que é ‘xaxado’, ‘macachera’, ‘jerimum’, o sol que você tem em você tão forte em mim é mais brando. Você fala de morenas, eu só lembro de polacas. Você fala na molecada, eu só lembro meus piás… Prosdócimo é um nome que conheço desde que nasci, há uma loja em Curitiba que tem uma quadra e esse nome. Polenta e frango frito, vinho caseiro, neblina, frio, casacos. Aloisio, o meu Brasil não é o teu, o meu Brasil é bem assim Aloisio, bem assim, a cara e o jeito das pessoas, Curitiba, o sul. Você não conhece, é isso, você não conhece…

E desandei a falar-lhe do Brasil que eu trazia dentro e que ele nunca conhecera, dos campos cobertos de geada e às vezes de neve, brancos, brancos, das araucárias enormes, das parreiras, macieiras, pessegueiros, do pinhão na chapa, do chimarrão ao lado do fogão, sentado no banquinho de lenha, dos meus piás, das gurias, de Curitiba, dos gelados dias de sol que ele simplesmente não compreendia (se havia sol haveria de estar quente, tinha que dar praia).

Tempos depois, em voltando para cá, comecei a me perguntar seriamente quem eu era, necessitando com urgência encontrar minha verdadeira raiz cultural. A Europa me havia feito ver, e sentir, que europeu eu não era de maneira alguma, inobstante o sangue catalão e alemão que corria nas veias.

Indo por força do trabalho morar em Rio Negro e Mafra, a coisa me aflorou. Ali, o rio entre as duas cidades gêmeas, o clima, o chimarrão noite e dia, churrasco e churrasco, o som da gaita no ar, o vanerão, o xote, o bugio, os descendentes de alemães, italianos, poloneses, tudo me trouxe à memória União da Vitória e Porto União que me viram nascer.

E comecei a me indagar porque eu, que sempre gostara de ‘jazz’ e outros sons mais sofisticados, era atraído por aquele som de acordeon? E me dei conta que, apesar de haver refinado o paladar vivendo na Itália, nada me deliciava mais do que uma boa costela…

E aí, amei o sul. E percebi que no fundo do meu coração estava o sul, brasileiro sim, mas do extremo sul. E amei Curitiba e a vi com o olhar mais terno do que nunca, a minha Curitiba, por sorte fria, por sorte sem mar, por sorte minha, minha, por sorte leitE quentE, dor dE dentE na gentE dE noitE, qual é o pentE que tE pentEIA?


TRAMUJAS NETO, Arthur. Passe a cuia, chê!. Revista Leite Quente, ano 1, nº 2. Curitiba, 1989.
pág. 8 e 9.

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Folclore da gralha-azul e das araucárias

 

Era noite de tempestades nos prados do Sul, dentro do rancho de tábuas uma fogueira de chão, um mate bem cevado e pinhões sapecados na fogueira aquentavam a frieza na noite gelada de inverno e chuva.

Contam os mais velhos que em noites como esta não se podia olhar para fora, pois se assim o fizesse o vivente atrairia para si a fúria da natureza e seus relâmpagos furiosos cegariam o astuto curioso. Mas vivente curioso é o que não falta neste mundo, e nesta noite um índio velho desafiando a crença dos antigos resolveu olhar pela janela e o que viu jamais esqueceu, conta-se até nos dias de hoje a sua visão.

O vento uivava bravio vindo do sul, raios cortavam o céu sem piedade e a chuva se fazia intensa e cruel. Foi aí que ao olhar para o céu ele viu um avezinha azul debatendo-se desesperada tentando fugir da tempestade sem conseguir exito na fuga, em sua frente frondoso pinheiro se vergava para acolher a ave sofredora e sem acreditar no que via ele ouve a árvore chamar a ave: — vem avezinha, abriga-te em meus galhos e eu te protegerei da tempestade!

O pássaro angustiado pousou naquele galho amigo que lhe abrigou, salvando assim sua vida.
A avezinha por gratidão passa os dias a arrancar a cabeça dos pinhões e enterrá-los para povoar a mata de novos pinheiros, garantindo assim que nunca falte abrigo às aves perdida em noites de tempestades.

 


 

Curitiba, 2018
Academia Curitibana de Letras
Endereço eletrônico: https://camposcuritibanos.com

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Encantos do meu Sul

Por: Alison Henrique Machado

Imagem: Jenifãn Larissa da Cruz Souza


Em dias de outono e inverno no Sul, as massas de ar polar trazem frio e geadas, as vezes neva. O céu fica cinza; os bosques, brancos. Então o azul da gralha se torna celestial e dentre os pinheiros-do-paraná ela voa derrubando as pinhas que, no ar, desmancham-se e caem como chuva de pinhões. Alguns germinam; uns, a gralha-azul enterra; e no pé da araucária as grimpas sapecam de vereda para nutrir o índio, o jesuíta, e a polaca.

As calçadas curitibanas desenham o nome da capital mais fria e expressam o sentimento de pertencer a terra de muitos pinhais, onde a erva-mate cresce nativa, e o Iguaçu oferece água para uma mateada.

O vento uiva, mas no fogão a lenha os nó-de-pinho fervem a água para o cozimento, e os pinhões se tornarão deliciosos brigadeiros, enquanto uma roda-de-chimarrão aquece as almas dos viventes.
No Sul do mundo o inverno é tão colorido como o jardim de um eslavo-curitibano.

Licença Creative Commons
“Encantos do meu Sul” está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.