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O proverbial mate amargo

Por: Alison Henrique Machado


 

Na região do vale que emana o alto, o médio e o baixo Iguaçu, principalmente o planalto curitibano, onde estão as nascentes, cujos céus cinzentos são predominantemente típicos — Curitiba é uma das cidades do planeta com menos dias de sol e, quando aparece, é acompanhado do frio — a principal fonte da vitamina D não é da luz do dia. É a sombra das araucárias que emana — em simbiose com uma folhosa, cujo aroma das folhas exala a cuia, e o mateador sorve o dito nutriente na seiva, a seiva da erva-mate — pois a Natureza é perfeita.

A erveira é sensível à exposição solar, e cresce nativa na sombra do pinheiro-do-paraná (Araucaria angustifolia). Aliás, araucárias e erva-mate comunicam entre si, formando um nicho majestoso que entende-se no longínquo sertão de Curitiba, como nas bacias do Tibagi e Ivaí, nutrindo os viventes na proverbial erva-dos-jesuítas.

A erva-mate foi classificada pelo seu habitat natural frio: Ilex curitibensis (Jhon Miers, Londres, 1861)— o termo “curi+tyba” é uma expressão guarani e significa “abundância de pinheirais / pinhão”.

Os planaltos do Paraná Tradicional, cuja fronteira entendia-se ao Rio Grande, eram denominados de Curitiba: Campos de Curitiba, o primeiro planalto; Campos Gerais de Curitiba e Sertão de Curitiba, o segundo e terceiro planaltos — e éramos todos curitibanos, por excelência, por cultura, por civilização, por gentílico, por ecologia.

 


 

Maringá, 2016
Academia Curitibana de Letras
Endereço eletrônico: https://camposcuritibanos.com
 

Licença Creative Commons
“O proverbial mate amargo” está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.

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Volta às raízes Gaucho curitibano

Por: Arthur Tramujas Neto


O pequeno restaurante localizava-se em uma esquina qualquer atrás do Duomo das três vezes milenar Pádua, no norte da Itália. Lá estávamos eu e o Aloisio, pernambucano do Recife, amigo inesquecível com quem eu dividia, senão o apartamento onde morava, o ‘banzo’ que seguidamente nos assaltava. Tínhamos parado para comer pimentinha frita e frango a passarinho, regados a um ótimo vinho ‘casalingo’ que oferecia o simpático lugar.

Sentados a uma mesinha junto à janela, de enormes vidraças, comíamos mecanicamente e bebericávamos, após um meia hora de papo sobre o mesmo e eterno tema: o Brasil.

Olhando para fora meus olhos percorriam a rua: molhadas calçadas e paralelepípedos, a neblina forte, rostos rosados, passos apressados fugindo do frio e da umidade, casacos e casacos, sempre azuis, marrons, cinzas… Percebendo a placa que indicava o nome da rua em que estávamos não tive como não sorrir: via Prosdócimo. A proximidade das festas de fim de ano, a distância da família, dos amigos, apertou-me o coração e banhou-me a visão.

Atento, Aloisio saiu do silêncio em que mergulhávamos e perguntou-me o que havia. Quase sem querer respondi-lhe que estava lembrando de casa, que o que via recordava Curitiba.

Espantado ele começou a rir, dizendo que eu deveria estar louco, que não havia nada ali que pudesse lembrar o Brasil, aquele frio desgraçado, a neblina toda, chuva, chuva. Brasil, da onde, da onde Brasil?

E foi aí que caí em mim, depois de milênios em silêncio ouvindo Aloisio pintar ‘seu’ Brasil.

Aloisio, disse-lhe de repente, tateando uma descoberta seguida por uma enxurrada de palavras, Aloisio, meu caro, eu nunca vi uma praia de coqueiros, a não ser no cinema. O frevo é pra mim uma música e dança exótica. Não sei bem o que é ‘xaxado’, ‘macachera’, ‘jerimum’, o sol que você tem em você tão forte em mim é mais brando. Você fala de morenas, eu só lembro de polacas. Você fala na molecada, eu só lembro meus piás… Prosdócimo é um nome que conheço desde que nasci, há uma loja em Curitiba que tem uma quadra e esse nome. Polenta e frango frito, vinho caseiro, neblina, frio, casacos. Aloisio, o meu Brasil não é o teu, o meu Brasil é bem assim Aloisio, bem assim, a cara e o jeito das pessoas, Curitiba, o sul. Você não conhece, é isso, você não conhece…

E desandei a falar-lhe do Brasil que eu trazia dentro e que ele nunca conhecera, dos campos cobertos de geada e às vezes de neve, brancos, brancos, das araucárias enormes, das parreiras, macieiras, pessegueiros, do pinhão na chapa, do chimarrão ao lado do fogão, sentado no banquinho de lenha, dos meus piás, das gurias, de Curitiba, dos gelados dias de sol que ele simplesmente não compreendia (se havia sol haveria de estar quente, tinha que dar praia).

Tempos depois, em voltando para cá, comecei a me perguntar seriamente quem eu era, necessitando com urgência encontrar minha verdadeira raiz cultural. A Europa me havia feito ver, e sentir, que europeu eu não era de maneira alguma, inobstante o sangue catalão e alemão que corria nas veias.

Indo por força do trabalho morar em Rio Negro e Mafra, a coisa me aflorou. Ali, o rio entre as duas cidades gêmeas, o clima, o chimarrão noite e dia, churrasco e churrasco, o som da gaita no ar, o vanerão, o xote, o bugio, os descendentes de alemães, italianos, poloneses, tudo me trouxe à memória União da Vitória e Porto União que me viram nascer.

E comecei a me indagar porque eu, que sempre gostara de ‘jazz’ e outros sons mais sofisticados, era atraído por aquele som de acordeon? E me dei conta que, apesar de haver refinado o paladar vivendo na Itália, nada me deliciava mais do que uma boa costela…

E aí, amei o sul. E percebi que no fundo do meu coração estava o sul, brasileiro sim, mas do extremo sul. E amei Curitiba e a vi com o olhar mais terno do que nunca, a minha Curitiba, por sorte fria, por sorte sem mar, por sorte minha, minha, por sorte leitE quentE, dor dE dentE na gentE dE noitE, qual é o pentE que tE pentEIA?


TRAMUJAS NETO, Arthur. Passe a cuia, chê!. Revista Leite Quente, ano 1, nº 2. Curitiba, 1989.
pág. 8 e 9.